<T->      
          Coleo H Casos               
          Um estranho sonho 
          de futuro

          Casos de ndio

          Daniel Munduruku

Impresso Braille, em 
2 partes, na diagramao 
de 28 linhas por 34 caracteres, 
da Editora FTD, SP, 2004.

          Primeira Parte

          Ministrio da Educao 
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
          22290-240 Rio de Janeiro
          RJ -- Brasil
          Tel.: (0xx21) 3478-4400
          Fax: (0xx21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~,
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
<P>
          Copyright (C) Daniel 
          Munduruku, 2002

          Editora 
          Maria Esther Nejm

          Todos os direitos de edio 
          reservados  Editora FTD S.A.
          Rua Rui Barbosa, 156 (Bela Vista) -- So Paulo -- SP 
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  com.br~,
<P>
                               I
<R+>
 Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
 (Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
<R->

 Munduruku, Daniel
  Um estranho sonho de futuro : 
 casos de ndio / Daniel 
 Munduruku ; ilustrado por Andrs 
 Sandoval. -- So Paulo : FTD, 
 2004. -- (Coleo h casos)
 
  1. Literatura infanto-juvenil 
 I. Sandoval, Andrs. II. 
 Ttulo. III. Srie.
 
 04-1302            CDD-028`.5
 
 ndices para catlogo sistem-
  tico:

  1. Casos de ndio : Literatura infanto-juvenil 028`.5
  2. Casos de ndio : Literatura juvenil 028`.5
<P>
Sobre o autor
  
  Daniel Munduruku nasceu no Par e formou-se em filosofia nas Faculdades Salesianas de Lorena.  mestrando em Educao na Universidade de So Paulo. Preside o Instituto Indgena Brasileiro para Propriedade Intelectual (Inbrapi) e participa ativamente de atividades ligadas  causa indgena.
  Autor de *Histrias de ndio, Coisas de ndio, Kab-Darebu* e *O segredo da chuva*, entre outros ttulos. Foi o primeiro autor brasileiro a ganhar o prmio da Unesco de literatura infanto-juvenil sobre tolerncia entre os povos por seu livro *Meu v Apolinrio -- um mergulho no rio da (minha) memria*.
  Mora na cidade de Lorena, interior de So Paulo.  casado com Tania Mara e tem trs filhos -- Gabriela, Lucas e Beatriz.
<P>  
                            III
  *Algumas destas histrias me foram contadas por minha me, 
 Maria Costa, e por meu pai, Miguel Costa. A eles, minha gratido.
  *Agradeo a Heloisa Prieto mais esta oportunidade de contar as histrias da nossa gente; a Lucas Nemeth, a boa companhia que foi em nossa viagem  aldeia Kat; ao prefeito de Jacareacanga, Eduardo Azevedo, por seu apoio logstico em nossa viagem; ao povo Munduruku, por sua acolhida calorosa durante nossa estada na aldeia*.
<p>
 







 
  Dedico esta obra aos meus irmos e irms, ngela, Helena, Raimundo, 
Toninho, Zeca, Graa, Socorro, Robson Marcelo e Luis Guilherme, pelo 
grande apoio e carinho que dispensam a este irmo distante.
  A todos vocs, meu profundo amor.
<p>
                                V
 Sumrio Geral

 Primeira Parte
  
 Apresentao 
 O caminho mais seguro  
  aquele que foi pisado 
  muitas vezes ::::::::::::::: 1

 Prefcio :::::::::::::::::::: 5

 1- O esprito da 
  noite :::::::::::::::::::::: 11 
 2- O matintaperera na 
  janela ::::::::::::::::::::: 21
 3- Terror no pssaro 
  de ferro ::::::::::::::::::: 27
 4- A caminho da 
  aldeia ::::::::::::::::::::: 34
 5- Um encontro com a 
  me-d'gua ::::::::::::::::: 39
 6- O funeral ::::::::::::::: 47
 7- A cobra-grande :::::::::: 63
 8- Um estranho na 
  aldeia ::::::::::::::::::::: 69
 9- Um dia na aldeia :::::::: 73

 Segunda Parte

 10- Medo de ndio ::::::::: 81
 11- Lucas pescador :::::::: 86
 12- Um estranho sonho 
  de futuro ::::::::::::::::: 96
 13- Um reencontro com a 
  tradio :::::::::::::::::: 107
 14- As pegadas do 
  curupira :::::::::::::::::: 116
 15- Onze de setembro :::::: 126
 16- Retorno para casa ::::: 132
 Final: As conseqncias 
  da viagem ::::::::::::::::: 142
<p>
                             VII
  Por acaso voc conhece um bom caso de terror?
  Um caso de famlia secreto?
  Um terrvel caso de polcia?
  Um caso de ndio que nos faz pensar?
  Um caso de humor que d vontade de rir sem parar?
  Aventura, sonho, suspense e o acaso.
  Estes so os elementos da coleo H casos, criada de "caso pensado", para que voc, leitor, tenha um longo caso de amor com a leitura.
<p>
<11>
<Testranho sonho>
<T+1>
 O caminho mais seguro  aquele 
  que foi pisado muitas vezes

  Conhecer Daniel Munduruku foi um marco em minha vida.
  Eu o encontrei por meio de uma amiga querida, Lilia Moritz, que me 
apresentou a Daniel para que eu o acompanhasse durante a escritura de 
seu primeiro livro. Durante o encontro logo percebi que estava diante 
de um mestre, um jovem cuja sabedoria e sensibilidade se traduziam 
nos menores comentrios, na risada solta, na simplicidade para 
decifrar as pessoas, e principalmente no bom humor e talento para 
apreciar a vida.
  Desde ento fizemos muitos projetos literrios juntos e nossa 
amizade cresce a cada dia. Com os anos, Daniel e sua famlia passaram 
a fazer parte da minha e assim foi que ele levou meu pai, Luiz 
Prieto, para passar um tempo entre seu povo e depois meu filho Lucas, 
cuja viagem inesquecvel ele narra neste livro.
  A viagem durou quase um ms e, depois dela, pegadas de animais, o 
vo das aves, os sinais secretos dos sonhos passaram a habitar a fala 
de Lucas, que at hoje se beneficia desta experincia que todo jovem 
deveria ter.
<12>
  Dizia o antroplogo Claude Lvi-Strauss que s se conhece a prpria 
cultura a partir do contato com outra. E alm das aventuras na 
floresta, dos barcos e animais, dos novos amigos indgenas, aconteceu 
tambm uma aventura interna, pessoal e intransfervel.
  Sonhos passaram a ter a mesma importncia que os fatos, as 
reflexes contestando a importncia das informaes, adoecer  
sinnimo de perder a conexo com os espritos ancestrais, o contato 
com outra tradio ajudando-o a descobrir um mapa interno, o mesmo 
que auxilia as aves migratrias em seus vos de modo que elas sempre 
encontrem seu destino.
  Dizem os antigos munduruku: O caminho seguro  aquele que foi 
pisado muitas vezes. Ento, que este trajeto que uniu 
temporariamente um jovem urbano ao universo ancestral do povo 
indgena seja trilhado inmeras vezes at tornar-se uma rota segura 
para o conhecimento, a amizade e a igualdade entre todos.

*Heloisa Prieto*

<13>
<p>
<p>
 Prefcio

  Este livro  uma fico, mas partiu de um fato verdadeiro. O menino 
Lucas existe e ele foi comigo a uma viagem at minha aldeia no Estado 
do Par. Alguns dos fatos aqui narrados so verdadeiros, ocorreram 
nos vinte dias que passamos viajando. Outros fatos so narrados 
apenas para mostrar como  o dia-a-dia em uma aldeia Munduruku e como 
o universo deste povo  recheado de histrias mgicas e crenas que o 
ajudam na organizao de seu estar no mundo.
  A viagem foi muito gostosa e cheia de aventura e alguns 
contratempos tambm. Como o acesso  bastante difcil, tivemos que 
esperar algum tempo at conclu-la.
  Samos de So Paulo rumo a Santarm. Antes passamos por Belm, onde 
ficamos dois dias. Chegando a Santarm, tomamos um barco que nos 
levou para Itaituba, uma cidade que cresceu muito na dcada de 1960 
devido  descoberta de grandes jazidas de ouro na regio. O 
crescimento trouxe tambm a violncia e a pobreza. Embora fosse rica, 
Itaituba continuou amargando uma triste estatstica de cidade mais 
violenta do Brasil. Era conhecida como a cidade faroeste por 
ocorrerem nela autnticas cenas de bangue-bangue, semelhantes s dos 
filmes 
<14>
americanos. Quando a febre do ouro diminuiu, Itaituba estava 
ainda mais empobrecida e sua populao teve que se adaptar aos novos 
tempos. Por isso a cidade investiu na agropecuria, na pesca e no 
turismo.
   na cidade de Itaituba que fica a sede regional da Fundao 
Nacional do ndio (Funai). Passamos por l para dar satisfao ao 
administrador; depois seguimos, de avio, para a cidade de 
Jacareacanga, municpio do qual fazem parte todas as aldeias 
 Munduruku do Par.
  Esse municpio, relativamente novo, foi emancipado no incio dos 
anos 1990, quando se tornou independente de Itaituba. At dez anos 
atrs a cidade no tinha sequer energia eltrica pblica. Apenas 
alguns comerciantes tinham acesso a esse luxo e isso os fazia 
explorar a populao inteira, inclusive a indgena.
  Como todas as cidades da regio, Jacareacanga foi criada por 
garimpeiros. Pessoas vindas de diversos estados brasileiros acorreram 
para l atrs da riqueza rpida. Muitos desses homens e mulheres 
acabaram tornando-se escravos dos grandes donos dos garimpos e 
permaneceram pobres para o resto da vida. Como se tratava de uma 
cidade sem populao fixa, Jacareacanga no tinha muita expectativa 
de futuro, vivendo do ouro que, eventualmente, por ali se encontrava. 
Somente depois de sua emancipao a cidade passou a receber maior 
ateno e hoje tem um desenvolvimento mais visvel.
  A populao de Jacareacanga  composta, em sua maioria, pelos 
herdeiros dos primeiros garimpeiros e mineradores da regio. No 
entanto, fazem parte dela aproximadamente dez mil Munduruku, que 
habitam perto de cem aldeias numa rea recentemente homologada de 
quase dois milhes e meio de hectares.
  Por ser uma cidade distante dos grandes centros, Jacareacanga tem 
um custo de vida muito alto e, s vezes, faltam gneros de primeira 
necessidade para a populao local. Quando chegamos, havia falta de 
gasolina para subirmos o rio at a minha aldeia. Isso atrasou um 
pouco nossa viagem.
<15>
  Outro fato bastante marcante foi o ataque ao World Trade Center, 
nos Estados Unidos, no dia 11 de setembro de 2001. Ficamos sabendo do 
ocorrido ali em Jacareacanga, no hotel onde estvamos hospedados. 
Embora tenha sido chocante, no houve nenhum impacto maior no 
cotidiano daquelas pessoas.
  Queria dizer, para concluir, que o jeito de narrar estes 
acontecimentos  como memria buscando refletir os fatos. Algumas 
vezes preferi colocar ponto de vista ou opinio numa tentativa de 
comparar a sociedade indgena com a no-indgena, mostrando as 
qualidades e os defeitos de uma e de outra. Sei que algumas vezes fui 
parcial, favorvel  sociedade indgena. Espero que entendam. Lembrem 
que quem narra os fatos  um indgena, portanto  a partir dessa 
tica que deve ser lido este pequeno livro.

               ::::::::::::::::::::::::

<18>
<p>
<p>
 -- 1 -- 

 O esprito da noite

  -- Al, aqui  de So Paulo, preciso falar com o cacique Arnaldo, 
cmbio.
  -- S um instante que vou cham-lo, cmbio.
  -- Vou esperar na linha.
  O tempo passou bem lentamente enquanto eu aguardava na linha a 
vinda do cacique. Fiquei pensando por um momento sobre o motivo 
daquele chamado. Ser que a visita de um estranho  aldeia iria 
causar muito alvoroo por l? Teria eu feito bem em convidar meu 
amigo Lucas para ir  aldeia?
  Meus pensamentos foram interrompidos quando uma voz do outro lado 
da linha me despertou para a realidade. E agora, o que poderei dizer 
ao cacique?
  -- Xipat, obor Daniel? O que est acontecendo por a?
  -- Xipat, Arnaldo. E com o velho amigo, como andam as coisas?
  -- Por aqui est sempre do mesmo jeito e s piorando. Continuam 
invadindo nossas terras. Mas tudo isso voc j sabe, no  mesmo?
  -- Infelizmente, sei. Mas o motivo de ter ligado para voc  para 
lhe pedir autorizao para levar um amigo at nossa aldeia. Ele quer 
nos conhecer...
<19>
  -- Quantos anos tem este pariwat?
  -- Ele  ainda jovem, no deve ter mais que catorze anos.
  -- E voc acha que ele agenta passar algum tempo por aqui? Voc 
sabe que aqui a gente tem que caar, pescar, coletar. Alm disso, tem 
os mosquitos, os carapans, os piuns...
  -- Eu sei, capito. Tudo isso j foi dito a ele e ainda assim est 
disposto a ir.
  -- Ento no tenho nada a opor. S peo que voc conte a ele a 
histria do pariwat que veio at aqui e se encontrou com o Esprito 
da Noite e ficou meio maluco. Voc se lembra?
  -- Lembro sim, Arnaldo, e vou contar para ele, prometo.
  Dito isso, desliguei o rdio e fiquei pensando no que o cacique me 
disse. Procurei na minha memria a tal histria e lembrei de uma vez 
que um estrangeiro chegou a nossa aldeia com os olhos arregalados, 
cheios de medo. Veio remando uma canoa velha. Estava cansado e 
cambaleava. O cacique o acolheu com algum receio de que se tratasse 
de um garimpeiro invasor que tinha se perdido, mas como ele no 
conseguia falar e no tirava do rosto o espanto que havia chegado, 
Arnaldo preferiu deit-lo na rede e chamar o paj para ver o 
estrangeiro.
  Depois de algum tempo o paj estava ao lado do paciente, 
examinando-o. Acendeu seu cigarro de tauari e tocou a testa febril do 
homem, que continuava suando como nunca. Em seguida lanou algumas 
baforadas do cigarro e cantou uma cantiga ancestral. Muita gente 
comeou a chegar na casa do cacique para acompanhar o tratamento 
que o curador fazia. Com a sala j cheia de gente, o velho homem 
depositou ervas numa vasilha e lanou sobre elas gua fervendo. Ia 
molhando um velho pano e passando na testa e no peito do moribundo. 
De repente o homem comeou a gemer e falar coisas que ningum 
entendia direito.
  O paj no deu importncia s palavras desencontradas do doente e 
continuou a cuidar dele durante a noite toda, sempre acompanhado de 
uma platia que se avolumava na sala.
<20>
  Antes de o dia amanhecer por completo, o paj deitou-se na rede ao 
lado e adormeceu. Ele precisava sonhar com a doena que tinha 
acometido o rapaz.
  Depois de uma hora, o curador acordou um pouco atordoado. Foi at o 
igarap e tomou um banho frio da manh. Precisava lavar o corpo para 
manter sua memria viva a fim de fazer o remdio certo para o doente. 
Durante o tempo todo esteve em silncio como se estivesse procurando 
entender o sonho que havia tido. Em seguida, dirigiu-se at a mata 
que circundava a aldeia e apanhou um pouco de erva e uma raiz. Foi 
at sua casa e preparou um ch que trouxe para a casa de Arnaldo.
  Com a ajuda de vrias pessoas, o paj levantou o paciente e lhe 
aplicou uma massagem no corpo, seguida de um gole do ch que havia 
preparado. O doente tomou e quase vomitou todo o contedo porque o 
remdio era muito amargo. O paj, porm, conseguiu faz-lo segurar e 
engolir tudo. Em seguida voltou a deit-lo na rede para que pudesse 
dormir novamente.
  Lembro que se passaram algumas horas at o doente comear a se 
mexer e abrir os olhos. Ficou um pouco assustado ao ver tantos rostos 
estranhos diante de si. Aos poucos foi, no entanto, se recompondo e 
sentou-se na rede. Olhou ao redor e perguntou onde estava, ao que foi 
respondido que havia sido encontrado quase desfalecido e que tinha 
sido recolhido  aldeia.
  -- No sei como vim parar aqui, mas recordo que corri por um longo 
tempo pelo mato adentro.
  -- Do que voc corria?
  -- No sei direito, mas lembro que senti um arrepio muito grande no 
corpo. Olhei para trs, mas nada vi. Ou pelo menos no acho que tenha 
visto algo importante.
  -- O que voc estava fazendo aqui, em nossa rea?
  -- Sou pescador. Fao pesca esportiva. Vim de So Paulo junto com 
um grupo de amigos para praticar. Hoje resolvi sair sozinho. Por isso 
peguei um barco e fui at uma rea que, segundo dizem, tem muitos 
peixes. Mas no sabia que se tratava de uma rea indgena.
<21>
  -- A gente achou que voc era um garimpeiro. Tem muito garimpeiro 
que entra em nossa reserva para explorar, tirar o nosso ouro, 
destruir nossa terra. Mas queremos saber o que voc viu na floresta.
  -- Acho que so vocs que podem me explicar o que aconteceu. Eu vi 
um vulto muito estranho enquanto estava no barco. Como no sabia o 
que era, encostei meu barco no barranco e desci. Vi o vulto mais alm 
e o persegui segurando minha lanterna. Andei um pouco mais e, quando 
achei que estava muito prximo, percebi que o vulto era, na verdade, 
um imenso animal que se lanava sobre mim. Larguei a lanterna e corri 
o mais que pude. Estava com muito medo e cada vez que olhava para 
trs o animal parecia estar mais perto. Resolvi no olhar mais e 
correr. Tinha perdido totalmente a noo de onde estava e no sabia 
para onde ir. Acho que por isso vim parar aqui e ainda bem que vocs 
me encontraram e me acolheram.
  Todos ns havamos escutado com muita ateno o relato do estranho. 
Quando ele parou de falar, todos olhamos para o paj, que continuava 
sentado em sua rede. Ele ouviu com grande ateno a fala do pariwat. 
Sentindo que espervamos um pronunciamento, levantou-se e andou pela 
sala, fitando-nos. Depois falou para que todos ouvissem:
  -- O que este homem viu foi o Esprito da Noite. Ele encontrou um 
ser muito antigo que devia estar descansando naquele local. Quando 
ele quis ver de perto o Esprito, e este se sentiu ameaado, ele o 
atacou.
  -- Mas o que  o Esprito da Noite, meu av?
  --  o Esprito que acompanha o caminho da noite, meus netos. Ele 
vem verificar se a noite est cumprindo sua misso de fazer a terra 
descansar. Nunca ningum viu este esprito antes. Este moo foi um 
privilegiado.
  -- E por que ele no falou comigo e tentou me atacar?
  -- Ele no quis te fazer mal algum. Ele  um esprito que no faz 
mal a ningum. Voc apenas se assustou e deixou que a doena entrasse 
em seu corpo. Quando isso acontece com 
<22>
as pessoas, o medo as torna muito frgeis. Foi isso que vi no sonho 
que tive.
  O paj no quis continuar aquela conversa e dispersou todo mundo, 
sugerindo que levssemos o estrangeiro embora para que ningum 
achasse que ele tinha morrido na floresta e comeassem a procur-lo 
em nossas terras.
  Lembro que o moo agradeceu demais ao velho paj, que o tinha 
mantido vivo. Acho que foi por isso que o cacique Arnaldo sugeriu que 
eu contasse ao meu amigo Lucas essa histria, para lhe mostrar que 
havia muitos mistrios em nossa cultura.
  Embora eu no quisesse assustar meu jovem amigo, contei a histria 
para ele e para sua me. Isso gerou um certo receio nela, que j no 
estava muito convencida que esta viagem seria boa ao seu menino. 
Tentou, inclusive, convenc-lo a no sair de So Paulo e que deixasse 
para ir num outro momento. Felizmente Lucas j tinha decidido viajar 
e ficou at muito excitado para conferir a veracidade da histria. 
Coube  sua me conformar-se e aceitar a sua deciso. Preferi no me 
envolver no assunto. Para mim, o que eles resolvessem estaria bom 
demais.

               oooooooooooo

<24>
<p>
 -- 2 -- 

 O matintaperera na janela

  Meu amigo Lucas sempre foi muito tmido e entre ns havia pouca 
coisa em comum. Ele  descendente de espanhol, eu sou indgena; ele  
bem jovem, eu j tenho muito tempo de estrada; temos vises de mundo 
e modernidade diferentes. Mas temos algo em comum: nascemos no mesmo 
dia, seis de fevereiro. Segundo a tradio ocidental, somos do signo 
de aqurio, ambos vivemos no mundo das nuvens; ambos criamos 
universos em nossa mente. Ele o faz atravs da msica e do desenho, 
eu, atravs da literatura. E foi dessas coisas em comum que surgiu a 
idia de juntos vivermos esta experincia.
  Quando eu era criana, ouvia muitas histrias que meus pais e avs 
contavam. A gente se reunia no incio da noite, aps a nossa 
refeio, e os mais velhos se punham a contar histrias. Muitas delas 
eram verdadeiras, tinham sido vivenciadas por eles mesmos; outras 
histrias eram mais antigas, falavam de um mundo que era habitado por 
seres fantsticos, de um tempo muito anterior ao nosso. E ainda havia 
as histrias que a gente mesmo vivia em nosso cotidiano na aldeia.
  A que agora narro foi contada por minha av, numa dessas tardes de 
inverno da Amaznia, quando chovia torrencialmente. 
<25>
Era uma poca que no tinha energia eltrica e nossa nica iluminao 
era uma velha lamparina acesa  base de querosene, que a gente 
comprava na cidade.
  Minha av era uma senhora com mais de oitenta anos de idade, mas 
estava bem lcida, com lembranas claras dos acontecimentos. Ela nos 
disse que numa determinada noite de muito calor havia deixado a nica 
janela da casa aberta para entrar um vento que refrescasse seu sono. 
Ainda assim teve uma noite bastante difcil, pois acordava de vez em 
quando, sobressaltada pelo calor e por sonhos estranhos.  claro que 
isso a assustava, pois nossa tradio diz que os sonhos trazem 
mensagens do outro mundo. Quando os sonhos so muito freqentes numa 
mesma noite,  porque algo de muito ruim pode acontecer.
  A cada *flash* entre o sono e a viglia minha av acordava e 
assentava-se na rede para respirar fundo. Num desses momentos, ela 
despertou e voltou seu olhar para a janela. O susto que levou foi 
enorme. Sentada na janela estava uma grande ave que a mirava 
fixamente. Minha av esfregou os olhos vrias vezes na tentativa de 
confirmar sua viso. A ave ficou alguns instantes no batente da 
janela e depois alou vo para a floresta.
  Minha av correu at a janela, deu duas olhadas de relance e a 
fechou rapidamente com receio de que a estranha ave voltasse. Depois 
se assentou na rede e disse algumas palavras na lngua de nossa gente 
e deitou-se. Dessa vez dormiu at a manh seguinte sem nenhum 
sobressalto. To logo levantou, contou tudo o que tinha visto aos 
outros moradores de sua casa. Meu av, que era um homem muito sbio, 
ouviu tudo em silncio e disse que aquela estranha ave era, na 
verdade, a matintaperera pedindo fumo para no mandar doena sobre 
algum daquela casa. Na mesma noite minha av colocou fumo ralado 
numa cuia e deixou perto da mata. No dia seguinte tudo havia 
desaparecido e o perigo de doena tinha sido afastado da aldeia.
  Depois de ouvir a histria, quis saber de minha av como era a ave. 
Ela no soube me dizer, pois estava com muito medo e no 
<26>
foi capaz de reparar direito. Apenas me disse que a partir daquele 
dia nunca mais dormiu de janela aberta.
  Lucas contou com a ajuda de seu av para arrumar as malas. Seu Lus 
 um experiente caador. Viajou para muitos lugares do Brasil. Em 
algumas de suas viagens entrou em contato com os Xavante do Mato 
Grosso. Passava dias e dias longe de So Paulo, embrenhado pelas 
matas e rios de nosso pas.
  Foi por tudo isso que seu Lus quis emprestar sua experincia ao 
jovem neto, que iria fazer sua primeira viagem para um lugar 
distante. Aconselhou, conversou, admoestou, deu dicas de como se 
comportar no campo, o que deveria fazer em situaes difceis, etc... 
Eu ficava observando tudo de longe, ouvindo a apreensiva me trazer 
seus receios e ouvindo tambm conselhos de como cuidar do menino.
  De minha parte, fiquei pensando que na nossa tradio indgena as 
mes tambm lamentam muito quando os filhos saem para fazer seu 
ritual de passagem. Lembrei que foi assim que aconteceu comigo quando 
sa para ficar sete dias no mato. Minha me, assim como todas as 
outras mes, chorou. Chorou por dois motivos: um, porque a gente 
poderia no mais voltar, ser atacado por uma fera da floresta; dois, 
porque quando retornssemos j no seria mais um menino, seria um 
homem e teria que ser tratado como tal. Para as mes  sempre um 
momento delicado. Por isso tudo compreendia a apreenso de minha cara 
amiga. Por outro lado, no podia interferir por se tratar de um 
momento especial e de exerccio de liberdade. Quando voltamos da 
mata, somos tratados como adultos, recebemos o respeito de todos, o 
olhar das moas da aldeia e a permisso de nos casar, caso a gente 
queira. Imaginava que isso tudo estava acontecendo com o menino 
Lucas.

               oooooooooooo

<28>
<p>
 -- 3 -- 

 Terror no pssaro de ferro

  O avio  algo novo no imaginrio indgena. Alis,  novo tambm 
para o no-ndio, uma vez que  uma inveno recente, se pensarmos no 
tempo que o ser humano levou para invent-lo. No caso indgena, 
ento, h todo um espanto causado pela chegada desse aparelho que 
toma conta dos cus como um grande pssaro.
  O povo Xavante -- que foi contatado h 50 anos -- conta que quando 
viu um avio pela primeira vez achou que estava sendo invadido por 
grandes pssaros de ferro e imediatamente passaram a tentar acert-lo 
com suas poderosas flechas. As mulheres e crianas ficaram dentro das 
casas esperando que a qualquer momento fossem exterminadas por 
aqueles estranhos aparelhos celestes. Mas tudo no passou da chegada 
dos homens brancos em sua aldeia. No entanto, isso marcou 
profundamente o corao desse povo, que por longo tempo foi senhor 
absoluto do cerrado.
  A tecnologia indgena  bastante simples, til. O nativo desenvolve 
uma forma muito prpria de relacionar-se com a natureza, dela tirando 
tudo o que precisa para o dia-a-dia. Essa troca exige uma tecnologia 
que no est baseada em criar coisas para acumular bens. Ao 
contrrio, inventamos os objetos que nos ajudam a nos tornar cada vez 
mais livres.
<29>
  Com a chegada do homem branco, os povos indgenas tiveram que se 
adaptar a essa nova realidade, inclusive utilizando esses mesmos 
recursos para sobreviver e mostrar-se ao mundo. Hoje, muitos desses 
grupos j esto criando pginas na internet, produzindo 
documentrios, indo para a universidade, escrevendo livros, entre 
outras coisas.
  O avio tem sido um instrumento usado por muitos grupos para poder 
se locomover para participar de eventos no mundo todo, mas no  sem 
nenhum medo, no. Ao contrrio, dentro das aldeias h muitas 
histrias que falam sobre a presena do avio na vida dos povos 
indgenas. Alguns pesquisadores chegaram a encontrar desenhos antigos 
nas cavernas que registraram a presena de objetos voadores, tais 
como o prprio avio.
  Chegar na aldeia Kat  uma grande aventura. Para ganhar tempo  
preciso tomar um avio em So Paulo rumo a Belm, a bela capital 
paraense. Em seguida, pega-se outro que nos leva at Santarm. Isto 
em uma grande companhia area. Quando se chega em Santarm,  preciso 
mudar de transporte. Tomamos um barco a motor e seguimos at a cidade 
de Itaituba, uma antiga localidade que cresceu em funo do garimpo 
descoberto na dcada de 1960. Em funo desse ouro, Itaituba ocupou 
muitas manchetes nacionais como a cidade mais violenta do pas. Como 
era uma rea indgena, houve muito confronto entre ndios e 
garimpeiros. Depois ela cresceu, desenvolvendo uma economia baseada 
no comrcio de gneros alimentcios para outras reas de garimpos que 
foram aparecendo com o passar dos anos. Ainda hoje ela abriga aldeias 
indgenas em seu territrio.
  De Itaituba temos que tomar um avio para outra cidade de nome 
Jacareacanga. Ela abrange toda a rea indgena Munduruku. Pertencia a 
Itaituba at 15 anos atrs, quando se emancipou tornando-se um 
municpio independente e assumindo uma identidade prpria,  buscando 
uma economia auto-sustentvel. Nesse municpio habitam cerca de 
sessenta mil pessoas, sendo dez mil do grupo Munduruku. E tambm no 
 to fcil viver num lugar como esse. Meu amigo Lucas sentiu isso na 
pele, 
<30>
especialmente quando entramos na barriga do pssaro de ferro, indo de 
Itaituba a Jacareacanga.
  Chegamos ao pequeno aeroporto da cidade com um certo atraso. Uma 
chuva j se formava no horizonte. Tivemos que nos apressar um pouco 
mais, pois a pequena aeronave queria partir antes da chuva, caso 
contrrio s sairia no dia seguinte, o que para ns no era uma boa 
idia. Por isso nos apressamos e resolvemos embarcar imediatamente.
  O bimotor -- que em geral leva apenas cinco passageiros -- estava 
lotado. Contando as pessoas e as malas, era quase impossvel caber 
sequer mais uma nica mosca. Ns nos acomodamos do jeito que foi 
possvel. To logo nos assentamos, o piloto deu partida e colocou a 
aeronave em movimento. L fora o vento j apresentava sua majestade e 
alguns passageiros demonstravam certo receio naquela viagem.
  O avio tomou velocidade de decolagem e logo alou vo. De incio 
sentimos que a viagem no seria das melhores, pois o bimotor batia 
contra o vento e era jogado ora para um lado ora para outro. O piloto 
tentava controlar o aparelho, mas no conseguia. Todos nos 
segurvamos do jeito que era possvel. Mas o pior ainda estava por 
vir. Uma grossa chuva comeou a bater contra o pra-brisa do 
aparelho, fazendo-nos entrever um breve acidente areo.
  Havia um rapaz que viajava prximo ao Lucas. Com o decorrer dos 
fatos, o jovem foi se desesperando de tal modo que passou a gritar, 
dizendo que no queria morrer, que ainda era jovem, tinha muitas 
coisas a realizar, etc. Seus gritos apavoravam a todos, provocando 
desconforto.
  O piloto pediu para que o rapaz se controlasse para evitar o pnico 
entre os passageiros. S ento o jovem se conteve. A chuva comeou a 
ficar cada vez mais forte, lanando torrentes sobre a pequena 
aeronave, que resistia bravamente. O piloto fez uma manobra radical e 
levou o aparelho para as alturas, tentando ficar acima das nuvens de 
chuva. Felizmente ele conseguiu, diminuindo o pavor de que a aeronave 
casse. Mas o alvio s foi total no momento em que o avio 
aterrissou em Jacareacanga.

               oooooooooooo

<32>
<P>
 -- 4 -- 

 A caminho da aldeia

  Depois de ter passado tanto sufoco no pssaro de ferro, Lucas e eu 
s queramos um lugar para descansar. Porm, to logo chegamos, j 
havia um automvel para nos levar direto para a beira do rio, onde um 
barco a motor nos esperava. No entanto, existia um problema: a cidade 
estava sem combustvel. Ou seja, no tnhamos como sair dali por pelo 
menos dois dias. Isso nos obrigou a ficar na cidade. Mas nem tudo foi 
perdido, pois iniciamos um trabalho de reconhecimento no municpio. 
Foi a oportunidade que precisvamos para conhecer melhor a realidade 
do local.
  A aparncia do Lucas causou um certo alvoroo entre as moas dali. 
Ele  um jovem com um rosto bem delineado, de pele alvssima, cabelos 
que iam at o meio das costas. Este tipo de gente no  muito comum 
na regio, por isso todos voltaram sobre ele o olhar.
  -- Senhor Lucas, o que o trouxe a nossa cidade?
  -- Eu vim para conhecer a realidade daqui.
  -- O senhor no tem medo do que vai encontrar por aqui?
  -- Acho que no tenho por que ter medo. No vim aqui para brigar ou 
fazer qualquer tipo de discusso. Pelo contrrio, estou aqui para 
conhecer o povo Munduruku.
<33>
  -- Por que o senhor resolveu conhecer este povo e no outro 
qualquer?
  -- Porque conheci um Munduruku, de quem fiquei amigo, e resolvi vir 
conhecer como vive a gente dele.
  Foi assim que correu a pequena entrevista que Lucas teve que dar 
para a nica rdio da cidade. Pelas perguntas se podia sentir que 
havia certa inquietude nas pessoas, pois em cidades pequenas sempre 
h alguma desconfiana e insegurana, sobretudo se quem vem se parece 
com um europeu e est acompanhado por um ndio. Quase sempre as 
pessoas acham que est havendo algum tipo de movimento para acabar 
com elas, destru-las. Apesar disso, a populao local tem uma vida 
cordial com a comunidade indgena.
  Tambm Lucas teve que se encontrar com o prefeito da cidade e foi, 
inclusive, por conta dessa conversa que conseguimos combustvel para 
prosseguir a viagem para a aldeia.
<34>
  Nossa ida para a aldeia iniciou-se to logo o dia raiou. Levantamos 
por volta das cinco horas e fomos direto para o posto de gasolina 
suspenso, que fica a trs quilmetros da cidade. Embarcamos num velho 
caminho com outras seis pessoas que iriam aproveitar nossa 
embarcao para ir junto. To logo chegamos, Nicolau, o piloto que 
nos levaria, abasteceu o barco e deu ordem de partida. Todos nos 
assentamos do melhor jeito possvel e iniciamos a viagem, que duraria 
aproximadamente oito horas, cortando o igarap cabitutu que nos 
levaria at a aldeia Kat.
  A floresta amaznica  algo surpreendente. Eu a conheo bem e 
sempre me extasio diante de sua grandiosidade e beleza. Em muitos 
lugares s se chega a p ou de canoa. Alguns braos dos seus rios so 
to sinuosos que nem mesmo o mais experiente piloto se aventura a 
desobedecer as ordens que essa natureza impe.
  Nicolau, no entanto, j havia feito tantas vezes aquele caminho que 
o conhecia de cor e salteado e, ainda assim, seguia um ritual do qual 
no abria mo. Preferia sair bem cedinho para evitar surpresas como a 
chuva, o mau tempo e outros pequenos incidentes 
<P>
que sempre acontecem. Um desses incidentes ele nos contou quando j estvamos em pleno 
Tapajs.

               oooooooooooo

<36>
<p>
 -- 5 -- 
 
 Um encontro com a me-d'gua

  Nicolau assentou-se ao nosso lado, mas sempre de olhos voltados 
para o caminho das guas. Mesmo atento foi nos contando o encontro 
que ele jurou que teve com a Me-d'gua num dia em que ele teimou 
desobedecer e descumpriu o seu ritual.
  Era uma noite sem lua e precisvamos vir para a cidade trazer um 
doente para o hospital local. Ningum estava muito disposto a sair de 
casa porque, em noites como aquela, muita coisa poderia acontecer. Eu 
tambm no estava com muita vontade de ir para aquela viagem porque 
ela foi arranjada em cima da hora e eu nunca viajo dessa maneira. Mas 
naquela noite havia uma emergncia: uma criana tinha sido mordida 
por uma cobra cascavel das mais venenosas. Se ela no fosse carregada 
imediatamente ao hospital, acabaria morrendo. E como o menino era meu 
sobrinho e o cacique foi pessoalmente me pedir para ir, eu no pude 
recusar. Consegui que um outro primo fosse comigo mais a me do 
menino. No total ramos quatro pessoas.
  Embarcamos por volta da meia-noite, hora dos espritos estarem 
rondando os rios. Liguei o motor da voadeira e lancei um olhar para 
cima, pedindo a proteo dos ancestrais. Na primeira hora foi tudo 
muito tranqilo, sem sobressaltos. Meu sobrinho 
<37>
e sua me cochilavam no barco e meu primo ia clareando o caminho com 
uma lanterna de mo. De repente o motor comeou a falhar, at que 
parou totalmente e ficamos  deriva. Falei para meu primo que era 
preciso remar at a aldeia Tapereb para que pudssemos pedir 
auxlio. Ele pegou o remo e se ps a impulsionar a canoa, enquanto eu 
olhava o motor para ver se tinha acontecido algum problema de fcil 
soluo. No entanto, por mais que eu procurasse, no conseguia 
encontrar o local onde tinha ocorrido a avaria. Minha sensao era de 
que algo muito estranho tinha acontecido ao motor, porque eu no 
havia percebido nada de anormal pelo caminho. Mesmo assim, tentava 
encontrar o problema. Abaixado, no percebi que meu primo havia 
sumido da proa do barco. Levantei apenas quando ouvi um estranho 
barulho na gua, como se algum tivesse mergulhado. Quando percebi 
que meu primo no estava ali, me deu um desespero e achei que ele 
tinha cochilado e cado n'gua. Corri para a proa gritando por ele, 
acordando, inclusive, os outros passageiros. Quando ali cheguei, meu 
primo pedia para que eu o pegasse rapidamente porque a Me-d'gua 
estava querendo lev-lo para o fundo do rio. Estendi meu brao para 
ele e o agarrei com fora, alando-o para dentro da canoa. Ele estava 
todo encharcado e tiritando de frio. Joguei uma toalha sobre ele a 
fim de aquec-lo.
  Como a noite estava muito escura, no pude ver nada a nossa frente. 
Todos estvamos com muito medo e nos sentamos juntinhos, pois nossos 
velhos dizem que a Me-d'gua nunca desiste quando quer levar algum 
consigo. Ela precisa, vez ou outra, encontrar um homem para morar com 
ela no seu lugar de descanso. Existem muitas histrias de nosso povo 
que falam do sumio misterioso de rapazes. Ningum sabe para onde 
foram ou se meteram. Existe at a histria de um que sumiu e voltou 
depois de algum tempo, no se sabe de onde. Ele apareceu na aldeia 
muito plido e sem conseguir mais falar. Passou a comunicar-se por 
meio de sinais, pois no sabia ler nem escrever. Alguns acham que ele 
fora enfeitiado pela Me-d'gua para nunca revelar o segredo de sua 
casa.
<38>
  Pois bem, quando o primo recuperou o flego, perguntei a ele o que 
havia visto. Ele disse, ento, que viu uma mulher muito bonita no 
meio das rvores. Ela o chamava atravs de uma msica que, 
aparentemente, s ele escutava. Tentou firmar o olhar para poder 
enxergar melhor, mas viu apenas uma sombra. Alcanou a lanterna que 
estava no fundo do barco, e quando tentou clarear o lado da floresta 
onde estava a mulher, foi puxado para dentro do rio. No entanto, como 
estvamos pertinho da margem, ele agarrou-se a uma rvore. Foi nesse 
momento que prestei ateno e corri para a proa, segurando-o. Caso 
contrrio ele teria sido sugado para dentro do rio, de onde no 
sairia nunca mais.
  Tendo dito isso, Nicolau calou-se um instante. Lucas, com um ar 
incrdulo, no perdeu a chance de fazer perguntas a Nicolau.
  -- Voc acha que realmente foi a Me-d'gua que fez isso? No teria 
sido um cochilo que seu primo deu e acabou caindo na gua?
<39>
  -- Tenho certeza de que no foi um cochilo, pariwat. Todos ns 
estamos acostumados a viajar por muitas horas nestes rios todos. 
Conhecemos cada palmo a nossa frente. Depois, ningum cochila 
enquanto rema um barco.
  -- Mas se ele no sabe o que viu, como pode afirmar que era a 
Me-d'gua?
  -- Ele sabe o que viu. Ns da floresta temos nossos sentidos muito 
treinados para poder sobreviver aqui. Quem no sabe o que v no 
sobrevive tambm. Alm disso, obor, tem coisas que a gente s 
enxerga bem quando est de olhos fechados.
  -- Isso parece apenas mais uma lenda, um mito para assustar as 
pessoas...
  -- Talvez seja assim que as pessoas pensem na cidade porque elas 
esto rodeadas de claridade por todos os lados. Por isso os espritos 
que habitam a cidade no se manifestam e as pessoas acabam tendo medo 
umas das outras, verdadeiros fantasmas. Aqui ns no temos medo uns 
dos outros que vemos, temos medo do que no vemos, mas sabemos que 
existe.
<40>
  Assisti passivamente  conversa dos dois. Na verdade, estava 
admirado com a desenvoltura de Nicolau em explicar as coisas da 
tradio para Lucas, que, claro, apesar de ser nosso amigo, tinha uma 
formao mental da grande cidade, onde as pessoas so criadas quase 
sem nenhuma fantasia ou preferem esconder suas crenas com medo de 
parecerem ridculas.
  Enquanto pensava nisso, Nicolau retomou a palavra e terminou sua 
narrativa, lembrando por que, a partir daquele dia, decidiu nunca 
mais viajar de noite e seguir seu prprio ritual de embarcar sempre 
pela manh, quando o sol anunciava seus primeiros raios.
  Enquanto ia observando o sol se projetar sobre as rvores criando 
prismas na gua revolvidas pelo motor do barco fiquei imaginando o 
que Lucas estava pensando naquele momento. Talvez ele pensasse em 
como o povo indgena  supersticioso por acreditar em espritos que 
vagam pela floresta atrs das vtimas; ou talvez estivesse imaginando 
qual seria sua reao caso ocorresse com ele um evento dessa 
natureza; ou, ainda, imaginasse como seria morar no reino da Me-
-d'gua... enfim, talvez estivesse apenas querendo compreender 
estes mistrios que circundam os povos indgenas do Brasil... talvez.

               oooooooooooo

<42>
<p> 
 -- 6 -- 

 O funeral

  Depois daquela histria que Nicolau nos contou, ficamos um tempo 
sentados, quietos, observando os movimentos ao nosso redor. Vez em 
quando um grande mutum batia as asas sobre ns, fugindo do barulho da 
voadeira. Vimos tucanos, araras, jacars, que nos vigiavam a 
distncia. Lucas, como um bom turista herdeiro do av, procurava 
registrar tudo com sua cmera filmadora e sua mquina fotogrfica. 
Eram seus outros olhos, ele dizia. Assim passaram-se mais algumas 
horas da viagem.
  De repente Nicolau nos chamou e apontou para cima. Lucas olhou com 
ateno, mas nada entendeu. Nicolau gritou l do seu lugar:
  -- Estes pssaros esto dizendo duas coisas. Primeira: mais tarde 
vai chover; segunda: aconteceu algum fato triste por aqui. Daqui a 
pouco iremos saber o que , pois estamos chegando na aldeia Terra 
Preta. Certamente eles tero um caf com melancia para ns.
  Quando Nicolau calou-se, Lucas no se conteve e veio me fazer uma 
srie de perguntas.
  -- Como ele sabe disso?
  -- Disso o qu? -- falei querendo provocar o menino.
  -- Dos pssaros. Como ele sabe que os pssaros esto falando isso? 
Ele , por acaso, uma espcie de bruxo?
<43>
  -- Claro que no, Lucas -- disse sorrindo. -- A gente acredita que 
os pssaros so mensageiros dos espritos do tempo. Eles so capazes 
de ver alm do que vemos e sempre nos falam o que vai acontecer.
  -- Mas como  possvel aprender isso, essa linguagem?
  -- O vo deles  como uma escrita, um texto que a gente vai 
aprendendo a ler.  claro que para isso a gente precisa treinar 
bastante.
  -- Quem  que ensina essa escrita?
  -- Normalmente so os velhos. Meu av mesmo me ensinava esses 
cdigos deitado no cho e apontando para os pssaros. Para ns que 
vivemos na floresta  importante saber esses cdigos para que a gente 
no se perca quando est sozinho.
  -- E todos os pssaros so mensageiros?
  -- No, Lucas, apenas aqueles que voam alto.
  Lucas pareceu se satisfazer com as minhas respostas, pois virou 
para o lado e ficou procurando pssaros no alto do cu. Queria 
registrar com seus outros olhos.
  Enquanto nos aproximvamos da aldeia Terra Preta, vimos que ali 
tambm chegava um outro barco vindo do lado oposto. Ele trazia o 
motivo do vo dos pssaros a que Nicolau se referia. Trazia um caixo 
todo fechado. Do barco saram alguns parentes do falecido. Ficamos 
curiosos para saber o que havia acontecido e saltamos imediatamente 
do barco no ancoradouro da aldeia, que estava j cheio de gente. A 
ateno estava toda voltada para o caixo e seu ocupante, de modo que 
as pessoas nem nos notaram direito.
  Nicolau encostou a embarcao e aproximou-se para especular o que 
havia ocorrido. Ningum sabia direito. Disseram apenas que havia 
morrido por ingesto da raiz do timb, um conhecido veneno para 
pescaria coletiva. As hipteses ali eram vrias: alguns diziam que 
ele se matou porque tinha cimes da mulher com outros homens; outros 
falavam que ele ficou enfeitiado por algum esprito da floresta e 
queria morrer para juntar-se a ele; havia quem dissesse que ele no 
estava muito 
<44>
bem da cabea depois que seu filho de seis anos morrera ao cair de 
uma rvore; ou ainda que a morte da criana o fizera cair numa 
bebedeira lascada que o levara ao suicdio. Tudo isso, porm, eram 
apenas especulaes das pessoas, uma vez que ningum sabia ao certo o 
que ocorrera.
  Como acontece entre os Munduruku, os parentes do morto estavam 
muito tristes e chorosos. Entramos na casa onde seria realizado o 
funeral e o enterro e vimos um grupo de mulheres assentadas de 
ccoras, chorando, dando pequenos gritos de dor e falando em sua 
lngua que iriam sentir muita saudade dele e que lhe desejavam uma 
boa viagem para a terra dos antepassados, onde um dia todos iriam se 
encontrar.
  Lucas no estava entendendo nada daquilo. Aproximou-se mais de mim e 
fui explicando a ele cada momento do ritual que ocorria naquela hora.
  Conforme as pessoas que visitavam o local viam o cadver, saam 
para dar vez aos outros que queriam entrar. Samos tambm para o 
terreiro. Somente nesse momento aproximou-se de ns o cacique da 
aldeia. Cumprimentou primeiro Nicolau, por 
<45>
ser o mais velho do nosso grupo. Em seguida cumprimentou-me e a 
Lucas. Contei ao cacique Pedrinho o motivo de nossa viagem e que 
teria desejado chegar num momento menos triste para poder conversar 
assuntos mais alegres. Ele entendeu e nos conduziu at sua 
residncia. Nisso foi seguido por sua esposa, que logo providenciou 
caf, gua, farinha de tapioca e melancia para todos ns.  claro que 
comemos tudo com muito gosto, pois estvamos com fome.
  Na verso que Pedrinho nos ofereceu, o jovem pai realmente no 
agentou conviver com a morte do seu nico filho, preferindo a morte 
atravs da ingesto do veneno do timb. O cacique nos lembrou que 
esse veneno tem um efeito muito longo, de modo que a pessoa que o 
toma tem possibilidade de voltar atrs caso queira. O jovem sofreu, 
no dizer do cacique, antes de morrer.
  Pedi para que ele falasse um pouco sobre morrer para nosso povo, a 
fim de que o menino Lucas pudesse entender nossos rituais.
  Imediatamente Pedrinho assumiu um ar professoral, como se fosse dar 
uma aula, e dirigiu-se a todos os presentes lanando um olhar 
instigador.
  -- Morrer -- iniciou ele --  para ns um momento de muita 
tristeza. Quando um dos nossos morre, todos morremos um pouco. Mas 
morrer para ns no  uma coisa ruim. No  ruim para quem morre,  
ruim para quem fica porque sente saudade durante um longo tempo. 
Morrer  ir encontrar-se com nossos antepassados, que vivem bem longe 
daqui, na nascente do grande rio Tapajs. L, segundo nossa tradio, 
 a casa dos nossos primeiros pais e  o local onde nos reunimos com 
eles.
  Pedrinho fez uma pausa para respirar e tomar um gole de chib -- uma 
bebida feita de gua e farinha --, alm de comer uma boa fatia de 
melancia com farinha de tapioca.
  -- Nosso av ancestral -- retomou -- conta que seus primeiros pais 
viviam dentro da terra. Era um lugar muito bonito, cheio de coisas 
boas; ningum sentia fome, nem dor, nem morria nunca, todos eram 
muito felizes. Um dia, um jovem caador estava 
<46>
passeando num local nunca antes visitado e viu um grande tatu, que 
passou a perseguir. Quanto mais prximo estava, mais o tatu se 
escondia e escapava de suas mos. At o momento em que o caador viu 
o tatu abrir um grande buraco no cu para poder escapar. O moo, que 
nunca desistia de uma caa, foi at a floresta, apanhou um bocado de 
cips e construiu uma grande corda com a qual laou o buraco. Como 
percebeu que ela havia se prendido, subiu na corda e visitou aquele 
mundo que ele desconhecia. No entanto, ficou com medo e resolveu 
chamar mais gente para conhecer sua descoberta. Veio gente de tudo 
que era lugar. Alguns quiseram subir imediatamente, mesmo contra os 
conselhos dos ancios, que insistiam para que tomassem cuidados para 
no fazer nenhuma bobagem por l e que ali era o lugar da felicidade. 
Como o nmero de pessoas que queria subir aumentava, a corda foi aos 
poucos cedendo. No exato momento em que iriam subir todos os homens e 
mulheres mais formosos e sbios, a corda rom-
 peu-se e 
<47>
o buraco fechou-se quase que imediatamente, separando os dois grupos. 
Os que estavam no lado de cima estavam to distrados com a beleza do 
lugar que no se deram conta da catstrofe que havia acontecido. 
Foram se distanciando do local da fenda. Quando perceberam o 
ocorrido, quiseram voltar e descer, mas qual no foi a surpresa deles 
ao descobrir que no havia mais volta. Tiveram que construir casas e 
encontrar um jeito de viver naquele novo lugar. O mais interessante  
que as casas que fizeram aqui repetiam o mesmo jeito das casas do 
fundo da terra. Repetiam os mesmos rituais para que nunca perdessem a 
memria do lugar de onde tinha vindo. Os primeiros sbios daquele 
lugar ajudavam para que o povo no os esquecesse e diziam que 
voltariam para ali quando morressem.  por isso que eu digo que 
quando a gente morre volta para aquele lugar.
  Lucas no se conteve e quis saber mais coisas sobre a morte.
  -- Se j sabem para onde vai, por que choram ento?
<48>
  -- Porque somos todos humanos e sentimos saudade das pessoas que 
viveram perto da gente. Esse moo que morreu, por exemplo, escolheu 
morrer para estar mais perto do seu filho nico. A gente chora, 
Lucas, porque a gente acredita que nosso choro ajuda a passar nossa 
tristeza e porque faz com que as pessoas se libertem do parente 
morto, ajudando-o a fazer a viagem at o lugar dos antepassados.
  -- E depois que passa esse momento do choro?
  -- Durante um ms inteiro os parentes do morto choram e depois 
nunca mais pensam nele.  como se houvesse uma libertao, como se a 
gente tivesse certeza que ele chegou no lugar dos nossos 
antepassados. Ento ele est melhor l do que aqui e de l ele vai
olhar para a gente e vai vir nos visitar nos sonhos.
  Fiquei bastante admirado com a conversa de Pedrinho. No  muito 
comum abrir essas consideraes para estranhos, mas por algum motivo 
o cacique se sentiu  vontade com o menino Lucas. Na verdade, acho 
que ele aproveitou para falar para todas as pessoas que haviam se 
reunido ali.
  Ficamos conversando algumas amenidades, contando alguns fatos da 
cidade, enquanto aguardvamos as pessoas visitarem a casa do 
falecido. Pedrinho fez questo de nos mostrar toda a aldeia e o que 
estava nos arredores, como as plantaes de milho, arroz e mandioca. 
Ficamos admirados com o grau de organizao da aldeia e de como as 
crianas estavam todas muito bem de sade. Pedrinho nos contava com 
orgulho todo seu trabalho como agente de sade na comunidade.
  Enquanto conversvamos, um jovem veio nos comunicar que era hora do 
enterro e que o paj Mimi j havia chegado para fazer o ritual. 
Pedrinho apressou o passo e seguiu atrs do menino; ns tentvamos 
acompanhar os passos dele.
  Todos estvamos no centro da casa. Ali tinham feito um buraco onde 
o corpo seria colocado.  frente, o paj Mimi -- que era como 
chamavam o velho Argemiro -- segurando um marac e uma pena do 
pssaro mutum. Ele examinou o local e se ps a falar na 
<49>
lngua dos espritos. Dizia que a hora tinha chegado e pedia aos 
espritos dos antepassados que levassem o parente para o lugar de 
onde tinha sado para esperar a todos ns.
  Em seguida balanou fortemente o marac para purificar o ambiente. 
Deu algumas voltas em torno do buraco no cho e mandou que colocassem 
o corpo l dentro. Alguns parentes o tiraram de sobre a mesa onde 
estava e o desceram na cova. Junto com ele foram colocados os objetos 
pessoais: rede, arco e flecha, uma cabaa cheia d'gua, um pouco de 
farinha e pimenta, alguns nacos de mandioca, milho e arroz. Como o 
buraco era relativamente fundo, no houve problema de espao. Depois 
disso os parentes jogaram terra at ficar nivelado novamente. Samos 
da casa e nos encaminhamos para a de Pedrinho. Ao longe ouvamos os 
choros dos parentes.
  Lucas tinha observado tudo num silencioso respeito. Reparava em 
cada detalhe, nas palavras, no rosto das pessoas, no respeito que 
guardavam, nos rituais. Depois ele me confidenciou que ficou surpreso 
com a participao das crianas no funeral. Elas viam tudo com muito 
respeito. Procurei explicar a ele que para ns a morte no era um 
bicho-papo assustador. Ao contrrio disso, ela representa para nossa 
gente a oportunidade de nos unirmos com os antepassados.
  -- Vocs acreditam que ele volta um dia? Reencarna? -- perguntou-me 
de chofre.
  -- A gente acredita que podemos voltar sim, mas eu no sei como se 
chama isso, que nome se d a esse fenmeno. A gente acredita que  
possvel retornar.
  -- E por que o morto  enterrado de p e com a comida?
  -- Porque a gente acredita que ele ir fazer uma viagem e precisa 
de alimento para ela. Quanto a ser enterrado assim,  para facilitar 
sua caminhada.
  -- Achei estranho o fato de ser enterrado dentro da prpria casa. 
No h cemitrios?
  -- Sua casa  seu lugar preferido.  uma forma de homenagear o 
lugar onde ele viveu. Alm do mais, seus parentes iro chorar 
<50>
durante trinta dias para ajud-lo a atravessar o caminho que o separa 
do lugar dos antepassados, conforme voc ouviu do cacique Pedrinho. 
Os cemitrios distanciam os vivos dos mortos.
  -- Vi que as crianas participam de tudo. Ningum mandou que elas 
sassem dali...
  -- Ns no temos medo da morte, amigo Lucas. E desde criana nos 
dizem que ela  uma forma de nos encontrarmos com o esprito dos 
nossos antepassados. As crianas aprendem isso participando de todos 
os rituais da aldeia. Quando crescem, j sabem que isso faz parte da 
nossa vida social.
  -- Na cidade  muito diferente...
  Quando Lucas tocou no assunto, algumas pessoas o olharam como se 
quisessem que ele explicasse como  que as pessoas encaram a morte 
nas grandes metrpoles. Ele ficou um pouco constrangido, mas no se 
fez de rogado. Sentou-se no meio delas e ficou explicando como o tema 
era tratado na cidade.
  Deixei meu amigo falando sobre a morte e fui at onde o cacique e o 
paj estavam. Fiquei conversando,  espera do momento de continuar 
nossa viagem pelos igaraps que nos levariam para Kat.

               oooooooooooo

<52>
<p>
 -- 7 -- 

 A cobra-grande

  Nicolau deu-nos a ordem para embarcamos imediatamente, pois o sol 
j estava bem alto no cu e o caminho ainda era longo at nosso 
destino final.
  Lucas foi o ltimo a entrar. Havia estabelecido um contato bem 
interessante com as crianas, que o acompanhavam para todos os 
lugares que ele ia. Elas haviam gostado do jeito dele e tambm 
admiravam seus longos cabelos que desciam pelas costas. Elas diziam 
que ele se parecia com uma mulher. Riam a valer dessa brincadeira que 
o pariwat curtia tambm.
  A tarde j estava comeando quando avanamos para nosso destino. 
Viajamos um bom momento sem trocar nenhuma palavra. Estvamos muito 
impressionados com os acontecimentos da aldeia Tapereb. Aproveitei 
para deitar um pouco no estrado do barco. Nessa posio podia 
contemplar o cu azulado da Amaznia. O cansao era to grande que 
cochilei. Foi o bastante para ter um sonho. Lembro que sonhei que 
tinha morrido e que estava a caminho das terras dos antepassados. 
Levava comigo meus pertences mais usados em vida. Caminhava sozinho. 
De repente fui atacado por um bando de pssaros selvagens que vinham 
bicar minha cabea. Corri para debaixo das rvores 
<53>
para tentar me livrar deles, mas continuaram me perseguindo. 
Continuei correndo desesperadamente at encontrar uma pequena 
abertura de pedra, onde me enfiei. Imediatamente coloquei minha rede 
na entrada e os pssaros no puderam mais entrar e me deixaram em 
paz. Depois que eles foram embora, sentei e s ento percebi que 
aquela entrada era uma gruta muito grande, cujo final no conseguia 
enxergar tamanha era a escurido. Fiquei em dvida sobre entrar nela 
ou no. Como no tinha certeza, acabei saindo dali e retomando o 
caminho para o lugar dos antepassados.
  Lembro que esse sonho me deixou pensativo durante algumas horas. 
Ser que era um aviso? Ser que eu estava para morrer? O que meus 
antepassados queriam dizer com aquilo? Por que vieram visitar-me em 
sonhos?
  Meio perdido nesses pensamentos, no notei que Nicolau estava um 
tanto agitado. Ele esticava o pescoo querendo ver alguma coisa no 
meio da gua. Diminuiu a velocidade e passou a ficar mais atento. 
Lucas e eu ficamos apreensivos.
  -- O que voc est procurando, Nico? -- perguntei. Ele apenas me 
olhou, sem se mover do lugar.
  Na expectativa do que iria acontecer, ficamos atentos ao local que 
Nicolau apontava sempre. O barco singrava lentamente seguindo o fluxo 
das guas, enquanto o piloto dava o rumo usando um remo de madeira. 
De repente ouvimos um barulho vindo de mais longe e notamos uma 
pequena elevao que parecia ser uma cobra. Olhamos para o piloto, 
que tambm observava o local. Parecendo que estava lendo meu 
pensamento exclamou:
  --  uma cobra e das grandes. Acho que  uma sucuriju, tambm 
chamada de cobra-grande. Temos que ter cuidado e ver o que ela est 
querendo, ou se est com fome. Se estiver por aqui atrs de comida, 
ela pode virar nosso barco e da no vai sobrar nenhum de ns para 
contar histria.
  Lucas ficou apreensivo com as palavras do piloto, mas resolveu 
disfarar seu temor mirando a lente de sua filmadora na 
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tentativa de registrar aquele momento precioso. Infelizmente nada 
gravou, talvez por causa do medo.
  Nicolau continuou atento, mas como nada mais viu, sossegou no seu 
lugar. Mais relaxado, evitando ligar o motor por precauo, ele nos 
contou que as histrias sobre a cobra-grande so muitas e que os 
riscos que se correm ao v-la so tantos que  melhor nem lembrar.
  Depois do susto, para brincar com Lucas, eu lhe contei sobre as 
histrias da boina que correm pela Amaznia. Falei sobre os 
habitantes da floresta, que, entre ns, essas histrias no so 
tratadas como lendas ou conversas para assustar criancinhas; ao 
contrrio, elas so contadas justamente porque foram experimentadas 
pelas pessoas. Quando a gente trata essas histrias como folclore, 
lendas ou histrias da carochinha, estamos perdendo o medo do 
desconhecido e apagando em ns a fantasia que d sentido  nossa 
existncia.
  Acho que Lucas no entendeu nada do que lhe falei. Ao menos 
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achei que foi assim, uma vez que ele apenas balanou a cabea, aprovando o 
que eu havia dito.

               oooooooooooo

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 -- 8 -- 

 Um estranho na aldeia
  
  Finalmente chegamos at o Kat, aldeia que me viu crescer. 
Estvamos cansados e desejando um pouco de sossego. Ao menos era isso 
que todos espervamos, mas nossa surpresa foi grande quando vimos 
muita gente no porto, a nossa espera. No tanto por minha causa, mas 
porque as notcias sobre o Lucas j haviam nos precedido e todos 
queriam ver o pariwat de cabelos longos. Foi sucesso imediato.
  As crianas imediatamente rodearam o rapaz, que no sabia como 
proceder naquele momento. Senti que lanou um olhar pedindo SOS. Fui 
at ele e dispersei a meninada, que mesmo assim o seguiu at a casa 
onde amos nos hospedar. Todos faziam um grande alvoroo, quebrando o 
silncio que sempre acompanha a aldeia.
  L, eram os adultos quem nos esperavam. Cumprimentamos o cacique 
Arnaldo em primeiro lugar, pois nossa tradio ensina que devemos 
saudar primeiro o cacique da aldeia e depois os outros, iniciando 
pelos mais velhos. Apresentei o menino para os adultos, que o 
crivaram de perguntas. Lucas resistia a tudo de forma herica, sem 
reclamaes. O velho Biboy, um lder carismtico daquela aldeia, 
colocou-nos a par dos assuntos que 
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haviam acontecido ali nos ltimos dias. Fez um verdadeiro relatrio. 
Entre outras coisas, falou-nos das invases que garimpeiros estavam 
fazendo dentro da rea e que isto ocasionava tenso em todas as 
aldeias, tornando a iminncia do conflito cada vez mais certa.
  Lucas ouvia tudo com ateno, mas j estava demonstrando grande 
cansao. Tomei a palavra e disse que precisvamos descansar. Falei um 
pouco das novidades da cidade e convidei todos para uma refeio com 
os alimentos que ns lhes trouxemos. Os homens adultos dispensaram as 
crianas e chamaram as mulheres para acompanh-los.
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  Durante o jantar, recheado por farinha de mandioca, caldo de peixe 
e a carne de um veado, continuamos a conversar sobre assuntos gerais. 
Depois Biboy voltou a perguntar sobre o menino Lucas. Quem era ele? O 
que queria ali? Agentaria uma vida como aquela? No sentiria muita 
saudade da me?
  Procurei mostrar a eles que Lucas era sim um menino ainda 
inexperiente e que aquela era sua primeira viagem fora de sua cidade 
e que valeria a pena ser bem tratado por todos. Acrescentei que 
qualquer ajuda seria muito boa para que o menino pudesse sentir-se  
vontade na aldeia. Todos garantiram que o ajudariam, pois sabiam que 
era um bom menino.
  Ainda naquela noite ouvimos um pouco de msica cantada pelas 
crianas da aldeia e pelo velho Biboy, mas no tivemos condies de 
ouvir as histrias que ele queria nos contar. Ficou combinado que as 
ouviramos no dia seguinte. Com todas essas emoes, descansamos 
naquela noite de setembro, a primeira de Lucas numa aldeia indgena.

               oooooooooooo

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 -- 9 -- 

 Um dia na aldeia

  Faz parte da tradio dos povos indgenas acordar muito cedo para 
iniciar as atividades. Normalmente homens e mulheres fazem seu 
planejamento no dia anterior e j levantam sabendo exatamente o que 
devem fazer nesse novo dia.
  Cabe aos homens o cuidado com a aldeia e com sua famlia, sendo os 
responsveis por prover o alimento, tarefa que exige mais destreza e 
coragem. Esse alimento  a carne de caa e de peixe e o mel 
silvestre. Alm disso, devem ajudar as mulheres em sua lida diria no 
preparo da farinha e no trabalho na roa.
  s mulheres cabem os afazeres da casa, coletar frutas, plantar a 
mandioca e posteriormente process-la para tornar-se o po de cada 
dia. Alm disso, devem cuidar da caa que o marido traz, preparar a 
comida e tomar conta das crianas.  um trabalho estafante, que 
comea muito cedo e no tem hora para terminar.
  J as crianas tm total liberdade para fazer o que quiserem. No 
so obrigadas a realizar nenhum tipo de trabalho, a no ser pequenas 
tarefas que lhes so sugeridas pelas mes. Elas as fazem com alegria, 
pois sabem que esto contribuindo para o bom 
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andamento da vida cotidiana e com isso aprendem coisas importantes 
para a vida adulta. As crianas brincam o tempo todo. Suas 
brincadeiras tm a ver com aquilo que utilizaro mais tarde, quando 
j sero consideradas adultas por sua famlia.
  Brincam de imitar os animais apenas para subir nas rvores; de 
pescar e caar; de pega-pega; brincam de correr nas proximidades da 
aldeia. Com isso elas acabam fazendo o reconhecimento dos espaos no 
entorno de onde vivem.
  Os adolescentes (hoje em dia j  mais comum usar este termo, mas 
antigamente no se tinha essa nomenclatura para as pessoas em 
crescimento, j que crescer  algo que acontece durante a vida toda) 
acompanham os pais em suas atividades dirias. Eles os ajudam a 
desenvolver as aes voltadas para o sustento da comunidade. Meninos 
e meninas esto em fase de aprendizado e por isso acompanham sempre a 
me e o pai. Com essa atitude, os jovens vo treinando suas 
habilidades para aquilo que sero mais tarde, quando j estiverem 
assumindo sua prpria famlia.
  Assim passam-se os dias numa aldeia. O cotidiano  alterado, s 
vezes, pela realizao de algum ritual, de alguma festa ou de algum 
problema que acontea e que tire as pessoas do seu dia-a-dia normal.
  Quando chega a noite, outra vida comea na aldeia, pois  o momento 
em que as crianas se renem em torno dos mais velhos para ouvir 
histrias de antigamente, danar e cantar em volta da fogueira.  
claro que hoje em dia j existe tambm a televiso, que exerce grande 
influncia sobre as crianas e os jovens, especialmente as novelas e 
os jogos de futebol. Parte das pessoas vai ouvir histrias e outra 
vai para a televiso.
  Quando acordamos na manh seguinte, o sol j estava alto e as 
pessoas j tinham sado para o dia de trabalho. Acordamos com o velho 
Biboy falando pelos corredores. Falava alto como se quisesse mesmo 
nos acordar. Achei que j era mais tarde do que de fato era. Olhei no 
relgio e vi que no passava das seis e 
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meia da manh. Um pouco sobressaltados, levantamos de nossas redes e 
fomos fazer nossa higiene pessoal na beira do rio. Biboy ficou nos 
aguardando na sala.
  Quando voltamos, o sbio homem logo pediu caf para todos. Algumas 
mulheres foram nos servindo, trazendo tambm farinha de tapioca e 
beiju. Comemos  vontade. Foi uma farta refeio.
  -- Ento, parente, o que voc trouxe de bom para ns? -- perguntou 
o cacique Arnaldo, que j havia entrado na casa.
  -- Na verdade, cacique, no trouxemos muita coisa, j que no temos 
tanto dinheiro para comprar muitos presentes. Mas pudemos trazer 
alguns anzis para a pesca, linha de pescar, algumas camisetas, 
bastante mianga para fazer colares e pulseiras para todos.
  -- Para ns  j uma grande coisa -- disse Arnaldo.
  -- E fumo? Trouxeram fumo? -- falou uma voz no fundo da sala. Era o 
paj Chiquinho, que tambm chegara.
  -- Claro que trouxemos um pouco de tauari para o paj -- falei, 
arrancando um sorriso de contentamento do homem.
  Dito isso, passamos a distribuir os poucos brindes que levramos. 
Mulheres vinham de todos os cantos da aldeia. Traziam 
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colares feitos com sementes e dentes de macaco. Vinham para troc-los 
por mianga. Uma fila enorme se organizou. No sabamos bem como 
distribuir, mas o velho Biboy assumiu o trabalho de dividir entre 
todos. Fez de forma to organizada que ningum ficou privado de um 
pouco de mianga.
  Durante a distribuio chegaram algumas crianas e no vieram 
sozinhas. Trouxeram seus animais de estimao, como macacos, bichos-
-preguia, cutia, araras. Aquele momento tornou-se mgico para Lucas, 
que apreciava tudo do seu canto: tirava foto, filmava e procurava 
chamar a ateno das crianas com seus desenhos improvisados. A 
ttica de aproximao deu certo e logo Lucas estava rodeado por um 
monte delas, que davam gostosas risadas junto com o pariwat.
  Permaneci na casa com os velhos e Lucas saiu com as crianas. 
Gostei da iniciativa dele. Era um bom sinal, muito embora um rapaz da 
idade dele no se juntaria com crianas dentro de nossa sociedade. 
Mas o gesto dele foi bem entendido por nossa gente.
  -- Vai ser o momento dele aprender coisas de nossa aldeia. E a 
melhor maneira de fazer isso  com as crianas -- disse Biboy.
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  -- s vezes o melhor  deixar que se aprenda com crianas, pois 
sabemos que os jovens daqui so bem desconfiados e at eles se 
aproximarem de Lucas iria demorar muito tempo e tempo  algo que no 
temos -- disse eu, olhando um pouco para os jovens que a tudo ouviam 
sem se pronunciar.
  -- No tenha receio, meu primo -- quem falou foi o professor 
Misael, que adentrara o recinto com um certo estardalhao -- logo 
nosso novo amigo vai se acostumar com a gente. Afinal, primo, por que 
os pariwat olham para ns com medo?
  A pergunta do professor me deixou um pouco surpreso. Os Munduruku 
j no esto com bastante tempo de contato? No  tempo suficiente 
para entender como funciona a cabea dos pariwat? O que o jovem 
professor queria provocar com aquela pergunta?
  Um silncio prevaleceu na sala aps a indagao de Misael. Todos 
esperavam algum tipo de resposta. Achei que deveria dizer algo, mas 
nada me ocorria no momento. Pensei num caso que havia acontecido comigo algum tempo atrs.

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Fim da Primeira Parte

